Art Déco em Campina Grande

agosto 25, 2021

Campina Grande, cidade encravada no alto do Planalto da Borborema, possui uma história marcada por mudanças, sobretudo por sua intimidade construída junto ao comércio. A “Cidade do trabalho” viveu sempre à frente do seu tempo, fitando o futuro, avançando e moldando suas facetas aos desafios que estariam por vir. Foi assim que a cidade foi constantemente se modificando e não seria diferente em sua arquitetura urbana. As mudanças em suas edificações e até no traçado das ruas, principalmente na área central, é visível e é assim que a cidade parece não conviver bem com suas historicidades, pois o novo, o moderno é sempre almejado em detrimento ao antigo (passado). Caminhando pelas ruas da cidade encontramos sim traços do passado, mas até o exercício de pensar sua evolução não é uma tarefa fácil.
Até o início do século XX, Campina Grande já tinha passado por mudanças atendendo ao sempre crescente comércio, mas foi na gestão do Prefeito Vergniaud Borborema Wanderley que a cidade passou por uma profunda reforma urbana em seu traçado central, ruas foram alargadas e alinhadas, outras foram criadas e decretaram o fim de imensos quarteirões. Ruas, becos, casas e uma igreja (a do Rosário) deixaram de existir e uma nova arquitetura foi inscrita em seus prédios, o Art Déco, movimento eclético que estava em moda nas décadas de 1920 e 30 e que veio a demonstrar o apogeu econômico dos senhores do algodão, trazendo à cidade normas urbanistas estéticas e de cunho higiênico/sanitário.

Embora seja despercebido para muitos, o conjunto arquitetônico localizado nas principais ruas do Centro de Campina possui grande valor histórico. O conjunto Art Déco é composto por uma série de prédios privados e públicos, nos quais se destacam o prédio Anézio Leão (que já foi Câmara Municipal e hoje é Biblioteca Municipal e sede do IHCG), o prédio da Secretaria de Finanças e Administração da PMCG, as ruas Cardoso Vieira, Venâncio Neiva, Maciel Pinheiro, dentre outras possuindo um caráter homogêneo e com características próprias, caracterizando o que a arquiteta Lia Mônica Rossi denominou de Art Déco Sertanejo.
O conjunto arquitetônico Art Déco de Campina passou várias décadas praticamente intacto, mas a partir de 1990, veio a sofrer uma série de mutilações em seu conjunto central e em prédios existentes na periferia, como o que abrigou o antigo Matadouro público, em Bodocongó. A demolição, substituição de fachada e descaracterização publicitária (ocasionada pelos verdadeiros outdoors existentes que encobrem quase que totalmente as fachadas) são as principais ações nocivas a este patrimônio.

Para preservar esse acervo histórico, em 1999, a Prefeitura implantou o Programa Campina Déco. O objetivo era requalificar uma área urbana central que engloba cerca de 150 construções. Alguns prédios foram pintados, o cabeamento energético em parte foi retirado de postes e embutido nas calçadas. Mas o projeto não teve continuidade e as mudanças arquitetônicas continuam a ocorrer no Centro. Boa parte desses prédios estão inclusos na área do Centro Histórico delimitado pelo IPHAEP e neste perímetro, nenhum prédio pode ser descaracterizado. Porém, não é isso que se verifica e as mutilações continuam sem nenhuma punição aos transgressores.
O Art Déco em Campina Grande possui uma singularidade por ser um conjunto verdadeiramente homogêneo e relativamente grande. É um atrativo turístico que nunca foi explorado pela cidade. Assim como conjuntos arquitetônicos são visitados no Recife antigo, em Salvador, em São Luiz, em Ouro Preto ou em Olinda, o conjunto em Art Déco de Campina merece um destaque e deveria ser utilizado como um bem turístico, contribuindo com a cultura e economia local.
Este estilo arquitetônico está espalhado por todo o país, principalmente nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Goiás, como o relógio da Central do Brasil, Cristo Redentor, Elevador Lacerda e a antiga Estação Ferroviária de Goiânia. No entanto, em termos de conjunto, Campina Grande possui um grande destaque, ao lado dos conjuntos centrais em Goiânia-GO e Campinas-SP.
A preservação desse tesouro histórico passa por uma fiscalização mais eficaz e acima de tudo punição mais rígida para os que ainda insistem em profanar a história de Campina Grande registrada nos seus prédios e casarões. Um amplo trabalho de educação patrimonial também se faz necessário para que, assim, possamos enxergar o presente sem olvidar o que já se passou, numa convivência que deixaremos como legado para futuras gerações.

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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