Nova estrela a brilhar no Mundo-Sertão

agosto 18, 2020

No coração da Parahyba, quase em seu centro geodésico, está o histórico município de Taperoá, reinando no alto da Serra da Borborema. Terras dos Cariris Velhos, abrindo as cortinas do sertão. Região semiárida, inóspita, intrépida, rodeada de serras e riachos temporários.

É possível chegar a Taperoá “pela rodagem”, seguindo a BR230 e rodovias estaduais. Mas sabe de uma coisa? Apaixonado que sou pela aspereza delicada da caatinga, do Mundo-Sertão, gosto de ir “por dentro”, por caminhos empoeirados, um sem fim banhado de sol e luz d’onde se é possível admirar a paisagem cinzenta na maior parte do ano; árvores e galhos retorcidos se inclinam em direção (devoção) ao sol, fico pensando que é uma maneira de receber o mínimo de luz e por conseguinte calor, resistindo de maneira assaz engenhosa. E lá está a majestosa Serra do Pico, alta, despontando n’aquela geografia ancestral de índios, vaqueiros e curraleiros, beijando o rosto azul do céu.

Há anos que me meto nessas insondáveis paragens, afim de aprender com a contemplação, observando a imensidão que são aqueles Cariris Velhos, passando de passagem de um lugar a outro, conversando com as pessoas, vendo o tempo passar sentado em velhos bancos de aroeira que adormecem em compridos alpendres, ouvindo muito da sabença do que nunca se escreveu, mas que a oralidade garantiu a existência porque são marcas insculpidas nas almas, tatuadas como o ferrar na boiada. Para meu nostálgico amigo Pedro Nunes: o Sertão é um arquétipo que modela a alma e dá uma configuração permanente e original ao ser, explica ele que mesmo longe, um caririzeiro tem aquele torrão dentro de si, é o ethos, a força da terra, o espírito do lugar que o acompanha.
E em Taperoá, sempre busquei os conselhos do amigo Balduíno Lélis, que criou a Universidade Livre para o Trabalho, desenvolvendo técnicas simples de viver no semiárido evitando o êxodo. Será que terei alegria em ver uma de nossas universidades dando-o o título de Dr Honoris Causa? Ele merece, e muito! Um contemporâneo seu, de quase mesma idade, também se preocupou com a vivência no semiárido, e hoje marcamos o seu encantamento, sua passagem. Falo de Seu Manelito (Manoel Dantas Vilar Filho), visionário que ganhou notoriedade tocando a Fazenda Carnaúba, provando a todas regiões semiáridas do mundo que se pode conviver com a seca.

Numa dessas viagens, cheguei à Fazenda Carnaúba. Os letreiros, as marcas de ferrar, os beirais de janelas em amarelo, todo aquele universo mágico me remeteu a belíssima obra armorial de Ariano Suassuna, primo de Manelito, que ao ganhar uma premiação com o livro ‘A Pedra do Reino’, transformou-a literalmente em cabra, comprando duzentas cabeças de uma raça nativa. Com isso, Ariano e Manelito fizeram gostosa parceria na Fazenda; Manelito engenheiro agrônomo e um verdadeiro estudioso que após a morte do pai, o Sr. Dantas, abandonou a prodigiosa vida na cidade para dar continuidade a obra do pai, mantendo uma história familiar que remonta os idos de 1791.

Chegar à Carnaúba, sentar naquele alpendre e ouvir suas histórias, nos fazia inflar a alma de um ufanismo honesto e puro; com um brilho no olhar, ele nos instruía à valorização e devoção da nossa terra, excluindo os problemas com soluções tão simples que se tornavam mágicas, e assim construiu um legado que o mundo precisa saber e ouvir. Se queixava pela forma em que os governos

buscavam ir contra as secas com soluções impróprias, ele defendia que a seca nunca foi castigo, a água que Deus manda é suficiente, é só buscarmos um esquema de produção correto, e assim introduziu as raças bovinas Guzerá e Sindi e as cabras que dão uma fartura de leite, hoje transformada no premiado queijo Grupiara que leva também o tempero de ervas como aroeira, cumaru e alfazema. No último fim de semana foi realizado o oitavo ‘Dia D’ (dessa vez virtual), grande feira onde se faz amigos e se compartilha animais, produtos e ideias, e foi após o evento que ele foi internado e onde os anjos o conduziram ao descanso eterno. Após velório na Fazenda, foi emocionante seu cortejo para o cemitério de Taperoá. Levado por parentes, passou pelo longo corredor cimentado que divide os cochos, de um lado os Sindi, do outro os Guzerá e curiosamente os animais pararam de comer e observavam a caminhada, é como se fizessem a última reverência a quem os tratou com tanto amor. Ao fundo, a Serra do Pico testemunhava sua partida, sabendo que foi um homem que cultuou os Cariris Velhos…
Manelito foi contra os inimigos da natureza e profanadores da cultura, valorizando o que é nosso. Hoje ele faz companhia a Pedro Nunes e outros caririzeiros no panteão das estrelas, alumiando as noites de luar do Mundo-Sertão. Que Deus dê o céu a Manelito, requiescat in pace.

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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