Réquiem para Anacleto

julho 18, 2020

Numa tarde fria e cinzenta de início de junho, Campina Grande perdeu um de seus cidadãos mais autênticos, que marcou sensivelmente sua história. Contrariando a vontade dos amigos e de sua mente, a musculatura cardíaca se recusou a regar por mais um tempo seus pensamentos, seus sonhos e princípios, fechando seus olhos no último e mais profundo sono. Me refiro ao nosso querido amigo Anacleto Berto Luiz que, no alto de seus quase oitenta e três anos, liderava o bar que leva seu nome, localizado na Av. Getúlio Vargas, exatamente em um dos espaços ofertados pelo fim da ‘Comércio e Indústrias Reunidas Marques de Almeida e Cia’, um dos maiores investidores do setor industrial de Campina Grande do início do século XX.
Nascido em Surubim-PE em 22 de setembro de 1937, ingressou no grupamento de engenharia do Exército em João Pessoa, indo servir também no Piauí, ficando como militar por seis anos. Em seguida, foi chamado à Marinha, onde entraria como sargento, mas não quis. É necessário lembrar que esse período lhe causa um dos maiores orgulhos. Se referia aquele momento como um dos mais sublimes de sua vida, que lhe deu ensinamentos únicos.
Atraído pela fama de Campina Grande, que era a maior cidade da Paraíba na época, cheia de oportunidades, vem fazer morada em 1963 onde, na Rua Venâncio Neiva, em uma pequena lanchonete (que chamava de barraca, era vizinho ao fiteiro de Chicó, o maior vendedor de cigarro da cidade no varejo), lugar em que iniciou a venda de gelada de maracujá e de coco com o ‘pão molhado’ no molho (graxa) da carne, que rapidamente virou sucesso e tradição. Jailton (Salvador), o mais velho de seus seis filhos, levava o seu almoço e o esperava até depois das 14h, pois, costumeiramente, os dois seguiam para ver o treino do Treze, no estádio Presidente Vargas, seu time de coração. O comércio prosperou e logo pôs um bar e restaurante onde hoje é o Hotel Central, na mesma rua. defronte a Rádio Borborema.

Aí temos que mergulhar n’uma Campina de fins da década de 1960 e início de 1970, com seu anseio industrial e comercial e sua influência regional. A Campina dos Coqueiros de José Rodrigues, do Açude Novo servindo ainda a banhistas; a cidade dos vários bancos; Campina que vem a ter seu Plano de Desenvolvimento Local Integrado, com ideias tecnicistas do que seria ou não os rumos da cidade, executado inicialmente pelo então prefeito Evaldo Cavalcanti da Cruz; Campina do Projeto CURA; Campina que criou um calçadão na Cardoso Vieira, nas fraldas do estúdio da Rádio Borborema, do moderno Edifício Lucas e da Sorveteria Flórida, contrariando os taxistas da praça que era defronte ao edifício (hoje Wellington do Queijo e chaveiros). Enquanto isso, estavam populares e trabalhadores do comércio aproveitando um intervalo no Restaurante de Anacleto, provando a iguaria mais requisitada do momento, o comprido pão francês de cem gramas molhado com gelada daquelas armazenadas em uma espécie de ancoreta ou barril revestido internamente de metal com uma serpentina, deixando aquele líquido gelado, pronto para o consumo.
Por volta de 1972, ele foi seduzido pela fabricação de carimbos, vende o restaurante e resolve investir em uma pequena fábrica. Sem experiência, o negócio não logrou êxito e em menos de dois anos o levou a perder totalmente o investimento. Foi quando percorreu as ruas da cidade vendendo laranja e seu filho Jailton vendendo verduras. Nos fins de semana, os inúmeros campos de pelada eram repletos de gente ávida por futebol, a clientela perfeita para o consumo de laranjas. Lá iam os dois. Pouco tempo depois, reúne suas economias e compra um ponto ao lado do antigo escritório de Luiz Soares e do antigo Banco Paraiban (hoje Santander), na rua Demósthenes Barbosa, subida para as Boninas. Nesse ponto, volta ao ramo que sempre lhe satisfez, o de restaurante. Com ótimo dote culinário, atraía frequentadores para o café e almoço, além de atender aos anseios de boêmios, foi onde surgiu o ovo frito com o molho de carne e verduras acompanhado de pão assado.
Em 1984 o dono do prédio pede o ponto, dando-o a preferência de compra; sem querer sair do lugar, protesta. Nesse período surge um amigo, amizade forjada na paixão por canários, o Dionísio Marques de Almeida, que oferece um espaço na antiga fábrica criada por seu avô, no que foi aceito “de pronto”. Ali, Anacleto iniciou uma interessante história em meio as manifestações das ‘Diretas Já’.
Na Av. Getúlio Vargas, exatamente defronte a outro bar (e mercearia) o Ferro d’Engomar, protagonizou um dueto etílico e boêmio que há décadas reúne personalidades de Campina Grande: de jornalista a empresário, de lavador de carros a professores, de operários a desocupados, de estudantes a servidores públicos, gente de todas as camadas sociais. Há até uma paródia da famosa música de Jorge de Altinho ‘Petrolina e Juazeiro’ feita no Ferro d’Engomar onde diz: “do outro lado da rua tem o Anacleto… Anacleto, e o Ferro, é o Ferro, e Anacleto…”.
O Bar do Anacleto passou a reunir uma plêiade de pessoas que tinham em comum o despojar da soberba ou frescura, pois é um tradicional boteco notável por ser simples, porém aconchegante. Um espaço de no máximo seis metros por quatro, onde um balcão divide a pequena cozinha das mesas. Uma maior, a principal (ceia larga!) e outras três menores, com tamboretes, tudo em madeira. Dentro do balcão, Anacleto dividia o labutar com seus filhos, inicialmente Elton (Maguila), Elvis (Gordo) e Helder (Pinpim), um tempo depois, Eudes (Chorão) substituiu Maguila (todos reconhecidos por seus apelidos), trio que se manteve até a chegada de Caio (fiho de Pinpim), abrindo alas para a terceira geração familiar de servidores da boemia da cidade, compondo o que chamamos de complexo cultural das Boninas.
No Bar de Anacleto se exerce o compartilhar de mesa e de espaço no concorrido balcão. Quando se pergunta se tem pimenta ou palito, logo se nota a cortesia de seus frequentadores. Não raro alguém que está no balcão leva até outro cliente o seu esperado pedido. A gentileza é sinônimo do compadrio naquele ambiente bucólico.
Há pelo menos 25 anos, meu pai Paulo Roberto (da PR Eletro) toma café lá, o tradicional cuscuz com ovo e carne (ou frango) junto a um pão assado e, vez por outra, me faço presente ao café na companhia de Fábio Santana, Z’Edmilson, Dionísio, Pedrinho Móveis, Ranniere, Walter Sagaró, Júnior Contador, Bega, Assis Celular, Sgto Leal, e outros que ‘batem o ponto’ logo cedo. Mais tarde, Pedrinho Marceneiro, Naldinho das Cadeiras de Palha, Rômulo, Bolão, Dedé Mangará, Salvador, Nando da Jeans, Luciano Marceneiro, Jó do Seguro, Zé do Egito, Marivaldo, Jailson do Frete, Linaldo, Mazinho, Arthur, Neto, Rido da Aluízio, Lira, Porto, Uau, Jameson, Bico de Pato, Kenedy Sales, Evilásio Junqueira, Chico Alemão, Jairo, João Cabeção, Pedrinho do Sesc, Juarez Araújo da Caturité, Rodrigo, Capão, Canelinha, Oliveira, Carlos CD, Didjilla, Siogo, Tadeu JTP, Natal, Raimundinho, Fábio Chaveiro, Beto, Gabiru, Cláudio, Adilson Jr, Babalu, Emanoel, Edmundo Marceneiro, Chico Raposeiro, Marcelo da Cagepa, Bob Esponja, Araújo, Chinga, Damião, Neném PB, Boréu, Tião, Canelinha, Ventura, Pé de Pato, Ronildo, Fernando Vigia, Demétrius e muitos outros amigos, iniciam a caminhada etílica da semana, constituindo ali uma família que, na verdade, compreende uma série de trabalhadores da cidade, que ali vão para almoçar, tomar uma bicada, ir embora, às vezes voltar, às vezes ficar. Nas sextas, o happy-hour só é finalizado quando Chorão começa a boicotar, escondendo o abridor de garrafas, apagando as luzes, não sendo assim, com certeza varava a madrugada. Nos sábados, já cheguei a contar 38 pessoas dividindo o pequeno espaço. Assim, o Bar do Anacleto finca marcas indeléveis na história da cidade, marcando época.
Exemplo de polidez, atenção, simplicidade, honestidade e honradez, Anacleto sempre foi admirado por quem o conhecia, inclusive determinadas brincadeiras nunca eram soltas quando de sua presença, em sinal de respeito. Nos últimos anos, seus filhos Chorão e Pinpim tentavam aliviar sua carga de trabalho, mas ele era insistente, pelo menos em fazer o café coado, que sem dúvidas, nem o expresso do Café Aurora ou do São Braz são tão gostosos. O segredo, a medida perfeita, só ele sabia, o melhor de Campina. Chegava por volta das 4h30 para iniciar o preparo e as seis já tinha banquete pronto. No último carnaval, criamos o bloco ‘O Véi do Buxão’ e o primeiro homenageado, escolhido por unanimidade, foi Anacleto.
Há mais de um ano realizou um sonho, comprou um ranchinho em Lucena, próximo a praia, e no último carnaval, antes desse pavoroso período de pandemia, estivemos juntos brindando a vida. Infelizmente pelo momento sanitário, foi proibido o velório, mas nada impediu o cortejo e a homenagem. Inclusive não tenho saído de casa, medo e cuidado tem tolhido meus movimentos, mas não teria como evitar o tributo a ele… Saiu da UPA às 11h da sexta (5 de junho) e se dirigiu ao centro. Numa das cenas mais emocionantes que vi, estacionei ao lado do Ferro d’Engomar, desci do carro e comecei a ver tanta gente, muitos frequentadores que há muito não os cumprimentava… todos de máscara e mais ou menos afastados.
O automóvel fúnebre sobe a Getúlio Vargas, se arrasta devagar e para defronte ao bar… o piscar de suas luzes marcava a dor nos corações e o sentimento de perda. As palmas, as lágrimas, as preces foram marcantes! Em seguida um Pai Nosso e uma Ave Maria, e o cortejo seguiu para o bairro do Quarenta, onde morava. Na calçada de casa, parte da família, inclusive sua esposa (Dona Chiquinha), numa cena marcante e emocionante. Impossível conter a emoção! A pandemia do Covid-19 nos furtava de fazer uma melhor e maior homenagem. Que tempos terríveis vivemos… Foi quando seguimos, cerca de uns quarenta veículos, para o cemitério São Judas Tadeu, no bairro do Cruzeiro.
Mesmo com as recomendações em não adentrar ao campo santo, resolvi descumprir. O sentimento era, certamente, mais forte que eu! Acompanhei o cortejo a pé de alguns familiares. O vento batia nas palmeiras imperiais que ornam a avenida principal do cemitério. É quando vejo elas curvando-se para o préstito, imaginei estarem reverenciando e saudando Anacleto n’uma última homenagem. Dolorosa e sofrida. Ficaram sua esposa, seis filhos, dezesseis netos e seis bisnetos, inúmeros amigos, a saudade e uma dúvida: curiosamente, cinco dias antes, ele se desfez dos canários que criava. Um gesto de despedida?
Que Deus dê o céu a Anacleto. Meu sublime abraço!

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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