Um baluarte da cultura paraibana

fevereiro 16, 2020

Estive em mais um Pôr do Sol Literário na Academia Paraibana de Letras para prestigiar o lançamento do livro dos amigos José Octávio de Arruda Melo e Leidson Farias que trata sobre a última turma do populismo na Faculdade de Direito da UFPB, onde cursaram em 1963, momento em que encontro vários escritores, intelectuais e ativistas culturais. Devo dizer que essas reuniões literárias organizadas por Juca Pontes e Hélder Moura tem alastrado uma chama muito importante por todo o estado, semeando diversas produções em encontros perenes de escritores e leitores, ótimo momento de conversas e aprendizado, ainda mais no poético cair da tarde.
Ali, no auditório da APL, encontrei José Fernandes de Andrade que depressa me entregou um envelope branco e murmurou incisivamente: – É para você ir viu!? Acenei e me sentei, o evento já havia começado. Zé Fernandes é juiz federal aposentado e sempre o encontro em eventos culturais quando estou em João Pessoa. Pois bem, retirei do envelope o convite que trazia o lançamento de uma série de livros, dentre eles as obras esgotadas: ‘Datas e Notas para a História da Parahya’ (Vol.I 1909; Vol.II 1916) e História da Província da Parahyba (Vol I e II de 1912). Naquele momento fiquei atônito. Alegria em saber que aqueles preciosos livros seriam novamente publicados, já que estes dois autores: Irineu Pinto e Maximiano Lopes Machado respectivamente estão entre as obras fundantes dos estudos, reunião de documentação e escrita sobre a história da Paraíba, desatrelando de Pernambuco.
As duas obras foram publicadas no início do século XX e tiveram uma reedição na década de 1970 pela editora da UFPB, no entanto, nem uma edição nem outra está mais acessível, difícil vê-las em bibliotecas públicas. Como o mercado de colecionadores não perdoa, a edição mais recente (e menos valiosa) é raramente encontrada em sebos ou lojas virtuais e quando as encontramos, os dois volumes custam valores sempre acima de duzentos reais. Tenho os originais de Irineu Pinto, os adquiri em sebos de São Paulo e paguei (há uns quatro anos) duzentos e cinquenta reais cada. Isso inviabiliza o conhecimento e estudo dessas obras, tanto é que em uma especialização em História Local do Nupehl/UEPB fui questionado por alunos que desconheciam as obras, sabiam sim da existência, mas não tinham acesso.
Ao fim do Por do Sol Literário conversei com Zé Fernandes, falei da importância das obras e o tamanho do ato que ele estava fazendo em prol da história e da cultura paraibana. Ele sorriu e disse: – Vá para o lançamento que você vai ganhar o seu. Só ganha se for ao evento! Na saída, Hildeberto Barbosa Filho me disse que ele já havia republicado outros livros desde 2015, que como um mecenas, fazia isso do seu próprio bolso. Vim até Campina Grande pensando na importância do que Zé Fernandes estava fazendo para a literatura e historiografia paraibana, daí me lembrei da criação do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais, o CEJUS, soberbo prédio na Av. Rio Grande do Sul que ele criou contendo auditórios, salas de reunião e um memorial de sua vida acadêmica, jurídica e familiar. Ali já fui a muitas reuniões do IPGH e da UBE, realmente um centro de cultura.
No lançamento dos livros, dia 20/dez/19, fui direto a placa de inauguração do Cejus e li: “Este Centro é a realização de um projeto de toda uma vida. O mais importante legado que transmito a minha família, em especial aos meus filhos – Márcio e Mariana. Seja esta edificação um marco, uma casa destinada à cultura jurídica e social, herança que também deixo ao povo de minha terra – a Parahyba”, inauguração justamente no dia 26 de abril de 2005, um dia antes de sua aposentadoria.
Fiquei pensando nesse tipo raro de cidadão aposentado que consegue repousar a alma de uma vida inteira de trabalho se dedicando a cultura e as letras com tanto afinco. Descobri que com esses lançamentos se somavam no total vinte e sete obras raras publicadas, feito muito importante. Ainda no evento o puxei para um “pé de parede” e disse: – Irineu Jóffily pode ser a próxima publicação viu? Respondeu que iriamos conversar. Faço aqui minha reverência a Zé Fernandes, um baluarte da cultura paraibana que merece todo o reconhecimento.

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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