A SÍNDROME DA SARDINHA

novembro 18, 2019

As crises por que passa mundo nas últimas cinco décadas estão provocando uma completa reviravolta no conceito, a nível mundial, da forma de tratar o passageiro de avião, seja em voos domésticos ou nos internacionais, seja nos aeroportos. A nível mundial, a aviação comercial cresce a taxas anuais de dois dígitos, possivelmente a mesma taxa de desconforto que se aplica aos passageiros da classe econômica dos aviões comerciais e no conceito de novos aeroportos que vem sendo ou serão construídos. Uma verdadeira síndrome da sardinha em lata passou a orientar a forma de transportar e recepcionar passageiros da chamada economy class. Vejamos.
Até o final do século 19, o conceito padrão do espaço entre as poltronas nos aviões era de 85 centímetros em média. O que já representava um enorme desconforto. Vamos entrar no ano 2020 com esse espaço reduzido à média de 50 centímetros. Dobramos o índice de desconforto aos passageiros que não podem pagar tarifas mais caras. Na área aeroportuária, o conceito de interesse econômico social vigente até meados dos anos 70 éra de que uma cidade precisaria ter um aeroporto para cada 100/120 milhões de passageiros/ano. Razões de ordem econômica mudaram esse conceito, inventando-se uma nova forma de movimentar passageiros. Passou-se a quadruplicar esse número com a solução de se criar novos e gigantescos terminais de passageiros, a de se elevar o número de pistas de forma a se permitir muitos pousos e decolagens simultâneas, para o que se contou com os recursos da automação e da informatização postas à serviço da engenharia aeroportuária.
Contamos hoje com recursos inimagináveis há cinco décadas passadas na arte de concentrar um número infinito de passageiros em uma área antes restrita a essa prática. Ninguém lembrou de perguntar ao sofrido passageiro e para quem a conta é sempre enviada o que isso significava para ele. Viajar horas sentado em um espaço restrito significa, por exemplo, uma aula de extrema paciência para não se criar atrito com o passageiro na frente, que também busca um relaxamento no longo tempo em que permanece embarcado, nas horas de um frugal lanche ( que se afirma ser preparado por chefs internacionais) ; as longas e demoradas filas de chek in ou cheque out no embarque e desembarque; o sofrimento para passar de um portal onde se espera embarcar para outro por mudança de última hora; as longas e demoradas filas no estacionamento de carros com número de veículos superior a sua capacidade de suporte, e coisa do gênero exigem dose extra de compreensão. Ah, e a dificuldade de informação quando ocorrem cancelamentos ou mudanças de horários nos voos?
Ou seja, em nome do progresso, impomos ao passageiro uma política de sardinha em lata.
Podemos então perguntar: é humano e justo tratar clientes como sardinha em lata?

Hélcio Estrella

Jornalista de economia e turismo, ex-Presidente Nacional e atual membro do Conselho Nacional da ABRAJET

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