Sabadinho bom

outubro 17, 2019

Gosto de observar o cotidiano. Vivo a espiar as minúcias, os cheiros, cores, sabores. Vivo atento a mise-en-scéne das cidades, suas características e o que elas ocultam, além dos detalhes históricos. Sou um caminhante da cidade, com rumo despretensioso, buscando enxergar além do que ali está, tendo como guia apenas o olhar.

Aqui nesta coluna já tratei de várias cidades, mas Campina Grande e João Pessoa detém mais essa observação, é onde passo a maior parte do tempo. No último sábado estive na capital e pude me deleitar com o que de melhor a cidade poderia me dar. Nada de praia! Minha intenção era perceber a movimentação do centro histórico num dia alegre como o sábado. Um compromisso fixo foi meu ponto de partida: comprar uma pecinha numa oficina na Rua Treze de Maio. Antes disso, deixei o carro aos cuidados do amigo Dudé, que há anos pastora veículos defronte ao Palácio da Redenção. Meu primeiro fungar é na praça João Pessoa, onde me cerco de prédios históricos de grande beleza e vulto. Ali respiro fundo e admiro a paisagem.
Na Treze de Maio, compromisso cumprido na oficina Carvalho, segui em caminhada. A torre enegrecida da Igreja Nossa Senhora das Mercês com sua cruz céltica me chamou a atenção e fui reparando o casario. Atravessei a Avenida Padre Meira até alcançar a calçada da Igreja. Ali em seu muro me deparei com um sem número de discos de vinil, logo eu que tenho uma radiola Grundig e adoro escutar LPs nela. O simpático vendedor é o Beto Brega, comerciante de discos há décadas. Ele comentava cada disco que eu pegava, dava detalhes de músicas, compositores, época do disco, impressionante a habilidade e desenvoltura do Beto. Foi aí que peguei um LP de João Gonçalves e sorri, Beto de imediato comentou de farras que já fez com João em Campina Grande; ao saber que eu sou de Campina, ele contou que morou na cidade na década de 1970, que jogou em alguns times e perguntou por jogadores do Treze e campinense da época como Porto, Agra; amigos que ele fez na cidade.

Dos discos que comprei estão raridades como os dois primeiros de Agnaldo Timóteo, dois de Genival Lacerda, um de Luiz Américo, além de um compacto com duas músicas da seleção canarinho da década de 1980 trazendo o craque paraibano Júnior na capa. Beto Brega tem uma coleção de mais de três mil discos e me convidou em outra oportunidade para visita-lo. Disse que iria a Campina em breve para rever os amigos, tiramos um retrato (cada um segurando um LP de Genival Lacerda) e eu segui.
Aquelas ruas centrais pulsavam. Carros de lanche e churrasquinhos davam o tom e naquela virada do ponteiro das nove horas já tinha gente com cerveja na mão. O sábado é dia de alegria… Fui ao Ponto Cem Réis e pela primeira vez vi o Paraíba Palace já ocupado pela Assembleia Legislativa, acertada decisão da diretoria da casa em manter o legislativo onde está, não descaracterizando o sentido da praça dos três poderes. No Ponto comprei os jornais A União e o Contraponto e me dirigi ansiosamente para Livraria do Luiz na Galeria Augusto dos Anjos, ela recebe aos sábados grandes escritores numa verdadeira confraria. Pude ali abraçar os amigos Luiz Augusto Paiva, José Nunes, Marco di Aurélio, Carlos Perê e José Ronald, estrelas de grandeza da nossa cultura. Regado a um bom café, conversei que não vi a hora passar até que alguns se dispersaram.

Lá fora o chorinho na Praça Barão do Rio Branco me fez lembrar o Mestre Duduta. Envolto das antigas casas do Erário e do Capitão Mor, a melodiosa música dava um brilho especial ao começo de tarde. Populares e funcionários do comércio saídos do trabalho curtiam o som e dançavam, o nome do evento não poderia ser outro: Sabadinho bom. Muito bom mesmo

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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