Cotidiano, Cor e Ritmo

agosto 27, 2019

Estando na capital da Parahyba, não perco a oportunidade de estar em seu berço, o Centro Histórico, fonte inesgotável de inspiração poética, antropológica, histórica; ímpar é sua riqueza arquitetônica circunscrita em uma geografia repleta de latíbulos sentimentais cuja semântica é intima de cada caminhante, de cada observador; corações que pulsam na malha urbana da terceira capital mais antiga da terra brasilis.

Após participar de uma mesa redonda no curso de graduação em Arquivologia da minha querida UEPB, discutindo aspectos dos estudos paleográficos, batemos um papo com professores e alunos do curso até o horário do almoço. Daí peguei uma carona do Cristo Redentor até um restaurante nas proximidades da Lagoa, mas o que me saciou mesmo foi atravessar a calçada e tomar um banho nas poeiras do tempo em uma visita ao Sebo Cultural, aquele refúgio aconchegante e sombrio onde as almas de escritores e bibliófilos bailam e enfeitiçam, nos atraindo para as estantes, descortinando livros preciosos e dedicatórias históricas como do amigo historiador José Octávio que em 1983 dedicou ao saudoso Átila Almeida, seu livro ‘José Américo e a cultura regional’ “em homenagem a seu labor pela cultura, com admiração…”, pensei: como essa obra foi descolada do rico acervo de Átila que hoje está tão bem cuidado na UEPB? Bom, olha a hora! Tenho que ir ao IPHAN deixar um documento (lá na Praça Antenor Navarro, no Varadouro) e resolvi ir caminhando.
O que poderia ser um longo e enfadonho percurso foi na verdade um prazeroso passeio. Desci para o Parque Solon de Lucena, a famosa Lagoa. Vi a recente reforma ocorrida naquele logradouro e, do ponto de vista de visitação, observei muita gente “consumindo” o lugar. Casais conversavam no gramado, vi gente lendo escorado em uma das imperiais palmeiras, bom, lugar bem visitado, contagiante (me parece que a cidade gostou!), sem falar que estar na margem de uma lagoa por si só já é convidativo, brisa boa… Contornei a Lagoa e segui. Fitava aqueles contornos históricos, casarões em estilo neoclássico, colonial e art dèco se misturavam em um ecletismo complexo, nuances que contam uma belíssima história da arte, aquele cenário me fazia imaginar o lugar em muitas décadas atrás; me reportei ao final do século XIX e fiquei imaginando a inauguração do Theatro Santa Roza naquele início de novembro de 1889. Continuei caminhando e o séc. XIX não me largou, estava na calçada da Fábrica de Vinhos Tito Silva & Cia, quanta beleza… a imponência dos frontões sombreando as calçadas dava tons amenos aquele cair de tarde, até que cheguei à praça Antenor Navarro, uma verdadeira pintura realista, frontões coloridos numa energia sóbria e romântica. Dez minutos no compromisso e eu só pensava na volta. Dei um pulo no ateliê de J. Maciel e no Hotel Globo, reformado e vazio, meus olhos beijaram o Sanhauá e minha imaginação navegou em tempos coloniais de embarcações em seu ir e vir ao Varadouro.
Subi a ladeira, a Casa da Pólvora estava aberta e sem ninguém. Subi mais um pouco para admirar um dos maiores legados do Barroco no Brasil, a Igreja de São Francisco. Adentrando a Duque de Caxias, após saudar o poeta do Eu na APL, fui buscar refúgio lá na aprazível praça Barão do Rio Branco. E ali, ao lado do antigo Erário, Jackson do Pandeiro teve sua imagem imortalizada por J. Maciel em tamanho real (parecida com a existente em Campina Grande). Maroto, nosso maior ritmista repousa a perna esquerda no banco da praça e bem posicionado detém em mãos seu inseparável pandeiro. Curiosa é a interação que o mestre Jackson tem com os populares (ou os populares com ele!), uma senhora passou e deu duas batidinhas no pandeiro, logo após encarar a estátua como que a pedir permissão, e sorriu. Fiquei a observar…

O pandeiro congelado no tempo possui certa mobilidade em suas platinelas, proporcionando que transeuntes interajam com a obra de arte e entendi que foi proposital aquela condição, sábio J. Maciel… Um cidadão parou sua bicicleta ao lado da estátua e tocando o pandeiro cantou alto: “Oi responda esse coco com palma de mão/ Isso é coco do Norte, nunca foi baião”; como a dar uma satisfação me olhou e disse: Esse coco também é do Jackson, viu? Assim, de mansinho, o velho Jackson continua dando ritmo ao cotidiano da nossa velha Parahyba.

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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