Árvores contam histórias

junho 9, 2019

Em nome da história, fizemos um apelo para a não derrubada de uma árvore, uma cajarana histórica localizada na zona leste de Campina Grande
e que muito tem a dizer sobre a história do lugar.

O pedido feito nas páginas do jornal A União surtiu efeito e a sensibilidade do construtor de um condomínio residencial fez com que a centenária árvore, a sentinela da Rua Santo Antônio (antiga Ruinha), permanecesse dando o ar da sua graça para os moradores da região que também contam com o Pé de Tambor, este tombado por uma lei municipal e que há décadas serviu (e serve!) de abrigo para populares. Após a súplica, recebi uma série de informações de leitores chamando-me a atenção para outras árvores históricas, vejamos:
A amiga escritora Natércia Suassuna, além de me saudar pela ideia de preservação da árvore, dá conta de que em sua terra natal, Catolé do Rocha, existe uma centenária cajaraneira no antigo prédio Leão XIII, que já foi abrigo de beatas, colégio, hospital e sindicato e que hoje abriga o Centro de Catequese e Pastoral Leão XIII. Ainda frutificando, a cajaraneira tinha a companhia de uma tamarineira (não mais existente), palco de brincadeiras de crianças e jovens em décadas passadas (fiquei sabendo que havia uma disputa secreta entre a cajaraneira e a tamarineira, mas de outra vez conto!).
Do amigo Potiguara Naovinho recebi um relato de que um pé de Sapucaia localizado na aldeia Três Rios (município de Marcação-PB) sofreu um atentado no último mês de janeiro. Alguém para coletar mel utilizou-se de fogo e as chamas fugiram do controle, engolindo a árvore ancestral em chamas matando praticamente 90% dela. A Sapucaia, com mais de 30 metros de altura, faz parte da (de)marcação de terras que foram outorgadas aos Potiguara, efetivada pela visita de Dom Pedro II em dezembro de 1859. É considerada pelos moradores das aldeias próximas e do município um patrimônio histórico e ambiental, além de ser um marco fundante de Marcação. Em 2009 estive na aldeia e soube que Frederico Lundgren (da Companhia de Tecidos Rio Tinto, estabelecida no início do século XX em mais de 600 quilômetros quadrados do então engenho Preguiça) esteve no lugar e alertou que ninguém “mexesse” na árvore que já era muito antiga.
Muitas árvores marcaram a ocupação de povoados, quer seja abrigando a primeira missa ou dando sombra para feiras esporádicas. Fui alertado por vários leitores sobre a infinidade de distritos e municípios na Paraíba que tem seus nomes emprestados por árvores: Aroeiras, Caraúbas e Bananeiras receberam seus nomes pela abundância desses vegetais em seus territórios; Mari tem origem nos Marizeiros existentes, seu antigo nome também faz referência a um vegetal, o Araçá; Mulungú existia em quantidade, hoje cidade; os municípios do Ingá, Quixaba e Baraúna vem dos ingazeiros, quixabeiras e baraúnas de suas respectivas regiões, aliás, no Cariri quando se quer elogiar alguém se diz: – Fulano de tal é uma Baraúna!
Aos pés de uma Massaranduba existia uma barraquinha que servia comida a quem por ali passasse; Catingueira era uma árvore que amparava os viajantes, principalmente tropeiros em suas andanças. Juazeirinho é uma homenagem aos fartos juazeiros de outrora. Ouro Velho chamava-se Boi Velho devido a um vetusto boi que sempre se encontrava amarrado a uma árvore próxima ao caminho por onde cruzavam tropeiros e viajantes e a árvore ainda está por lá.
Ah, mas é só uma árvore. Contudo, sua importância histórica e geográfica é imensa. Aqui vimos só alguns exemplos de lugares que tem em sua formação e identidade a existência dela. As árvores possuem o direito de esbanjarem toda sua natureza e, à sua maneira, contarem a história do lugar que testemunham desde os primórdios.

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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