AVIAÇÃO DESCONECTADA

março 5, 2019

Uma das carências básicas do turismo brasileiro, ocupando lugar ao lado da segurança pública, é a conectividade aérea, que isola áreas importantes dessa atividade impedindo-a de uma expansão mais rápida no aproveitamento das potencialidades que ali existem. Recentemente o jornalista Jefferson Severino noticiou em seu blog que perdeu 12 horas para ir de Recife até Florianópolis, sua cidade, com as chamadas conexões.

Impor 12 horas de viagem para um percurso que o avião realiza em 3 horas me parece o fim do mundo. E o problema é antigo, apontado em mais de 3 décadas por líderes do trade e por autoridades, cujas propostas de solução nem são levadas a sério, porque o paquiderme oficial tem ouvido deficiente e custa muito a se mover.
Medidas simples poderiam ser adotadas. Por exemplo, a frota de nossas empresas é formada por aviões muitas vezes inadequados, comprados por falta de competência gerencial. Adotou-se o critério, baseado em estudos da Boeing para os mercados dos Estados Unidos e da Europa, de que uma aérea precisa de aviões de pelo menos 150 assentos para ter rentabilidade. Resultado, elas vêm dando com burros nágua por não pensarem com suas cabeças. O caso da AVIANCA é típico e a levou a um estado de quase insolvência, agora em recuperação judicial por causa do tamanho de sua frota, que levou em conta apenas os períodos de pico de passageiros, obrigando-a a devolver parte considerável da frota.
Ninguém descobriu que os EUA transportam cerca 1 bilhão de passageiros/ano (o Brasil, 10% disso); e que, por exemplo, uma aérea usa pequenos aviões entre Miami e Fort Lauderdale, menos de 50 milhas, onde existem autoestradas convidativas. No Brasil, foi preciso que um brasileiro (na verdade americano, aqui nascido) fundasse uma aérea e comprasse jatos feitos pela Embraer em São José dos Campos e com eles ocupasse em menos de 5 anos uma posição de liderança no mercado doméstico, deixando boquiabertos os antigos donos de aéreas.
Há ainda pequenas providências como subsídios temporários de Tesouros municipais ou Estaduais para uma empresa implantar uma linha aérea, como o fez a TAM no início de sua trajetória no interior de São Paulo.
Mas, pensar nisso pode ser demais para autoridades públicas no Brasil, onde nem sempre se chega aos altos cargos por mérito, e sim pelo seu Q.I., como popularmente se designam as indicações políticas.

Hélcio Estrella

Jornalista de economia e turismo, ex-Presidente Nacional e atual membro do Conselho Nacional da ABRAJET

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