Serra Branca e Sumé em festa!

janeiro 7, 2019

Festa de padroeira é um acontecimento especial, principalmente no que se refere às cidades de nosso interior. É um momento que propicia o reencontro de quem mora distante com seus familiares e amigos. Reencontros apaixonados, carinhosos, ternos, todos unidos em uma festança só, mas não é só isso: para quem vem de fora, as mudanças da urbe são mais sensíveis, é também um (re)encontro com seu cantinho, seu lugar. Aproveitando a época festiva, marcamos a nossa reunião de confraternização do Instituto Histórico e Geográfico de Serra Branca – IHGSB exatamente na véspera de sua padroeira, a Nossa Senhora da Conceição, que é celebrada no dia oito de dezembro e que, aliás, é festejada em várias cidades do Cariri histórico como Sumé, Cabaceiras, Pocinhos, Campina Grande e a própria Serra Branca.

Segui para a Rainha do Cariri sozinho. E sempre que vou ao Cariri, ao meu Mundo-Sertão, sou absorvido por uma infinidade de sensações que enchem meu peito de emoção. É algo mais profundo do que aquela impressão de estar chegando em casa… é um sentimento de pertença àquele chão, aqueles rincões, algo dificílimo de explicar. Vou tateando, procurando e reconhecendo seus signos e contornos, e a viagem depois da virada do sol – depois do pingo do meio dia – é reveladora! Os galhos secos da caatinga parecem se inclinar para oeste procurando o sol, ficando numa posição obliqua para receber menos raios solares, menos calor, sábia caatinga. Os ventos uivam varrendo a poeira e formando breves nuvens que encobrem o horizonte em véu, quando não fazem pequenos redemoinhos (lá vai Comadre Fulozinha…); não sei o porquê, mas aquele cenário tem um cheiro de passado, de antigo, de ancestral.
Aquelas serras distantes, tendo suas cumeadas beijadas por nuvens esparsas que parecem brincar em meio a imensidão azul, um cenário ímpar que nos leva a reflexão; como é magnífica a natureza e quanto somos miúdos diante de tanta beleza e generosidade. Na margem do Rio Taperoá, ao passar a ponte na “Travessia”, não vemos mais água e sim pedras que de tão lisas refletem o sol de maneira tão intensa que chegam a se esconder e se confundir com a areia fina e branca do rio. A BR 412 vai ganhando aquele Mundo-Sertão, em certo momento ela se alinha com a Serra do Saco, parece buscá-la. No seu chão, dentre os minerais que formam o asfalto se sobressai a mica que, fragmentada, proporciona um espetáculo de brilho ao momento em que reflete o astro rei, até parece um chão de estrelas… E a sentinela, a Craibeira de Daniel Duarte, parei ali e fitei os raios solares tomarem conta da Serra Branca, grande formação rochosa quase que completamente desnuda de sedimento e vegetação que pode ser visto de bem longe. Seu dorso convexo reflete os raios solares a destacando em meio às serras do horizonte. N’aquele olhar, eu imaginava o quão especial seria a reunião no início da noite e de fato foi o que aconteceu.
A reunião solene lotou o pátio da Escola Vasconcelos Brandão, o maior público de todas as reuniões que fizemos! De início a Orquestra Maria Guimarães, regida pelo Maestro Raniery, desfilou nos arredores da escola e na reunião iniciou tocando o hino de Serra Branca. Momento de pura e verdadeira emoção. O seu compositor, Paulo Lopo Saraiva, que tomou posse naquela noite na cadeira nº 09, era um dos mais emocionados. Cantava o hino com força, alegria e orgulho, fazia gestos e vibrava balbuciando “viva Serra Branca!”, gesto bonito de se ver, assim como foi seu belo discurso de posse. Tivemos as falas do Presidente de honra Berilo Borba, do Prefeito Vicente Fialho de Souza Neto (Souzinha) e do Presidente do Instituto Prof. José Pequeno. Através delas foi dito ao público sobre a reunião que houve durante a tarde entre o Prefeito e uma comissão
do IHGSB onde foi firmado o compromisso da Prefeitura em viabilizar uma sede provisória para nossa Casa de Memória, algo notável para nossos objetivos já que nossa sede, a Casa dos Borba, não possui ainda condições de ser ocupada. Por fim, o palestrante da noite, o amigo Daniel Duarte, se dedicou a fazer um esboço das padroeiras e padroeiros do nosso Cariri histórico, uma rica aula de história eclesiástica de nossas terras.
Após a reunião, fui observar a festividade. A praça estava bem movimentada numa paisagem de interior aconchegante e bela. Para o dia seguinte, outra festa! Sumé nos esperava para a reunião de aniversário do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri e inauguração do Memorial São Thomé do Sucurú, e foi o que aconteceu.
Primeiros raios de sol, mas como o Mundo-Sertão está amanhecendo cedo. Coisas da primavera. Bem antes das cinco, aquela barra da aurora cobria a zona rural de Serra Branca-PB. Onde eu estava, no sítio Várzea Nova, a claridade descortinava um cenário aprazível em toda sua idiossincrasia. Aquele ventinho tímido e frio, aquela sensação do orvalho que tomou a vegetação na madrugada; tons cinzas e pastéis sendo constantemente interrompidos pelas cores vivas da passarinhada: Maracanãs, Galos-de-Campina, Bem-te-vis e rolinhas eram só alguns dos espécimes que batem à porta do amigo Prof. José Pequeno (Zezito) para uma generosa oferta de xerém. Animados com a festa dos pássaros, damos início ao nosso dia.
A noite anterior foi uma ode à Serra Branca, evento magnífico do Instituto Histórico em que tive a honra de fazer parte e retratamos na crônica do último sábado. Nesta manhã, um outro evento histórico nos esperava: a Reunião Ordinária em comemoração ao décimo terceiro aniversário de fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Cariri – IHGC em Sumé, logo no dia de sua padroeira Nossa Senhora da Conceição, festa na cidade. O encontro sempre reúne uma parcela significativa de intelectuais, poetas, cantadores, escritores, ativistas culturais e entusiastas desta vasta região do Mundo-Sertão, o nosso Cariri, outrora Cariris Velhos.
Segui de Serra Branca com os amigos Prof. José Pequeno, Sérvio Túlio e Vicente Andrade (todos confrades do IHGSB), ganhamos a estrada com destino a Sumé, descendo Cariri a dentro. Quilômetro a quilômetro íamos observando os lajedos, as plantas que formam aquela caatinga brava e a grande elevação rochosa, a Serra do Saco, que em parte do caminho está alinhada com a BR 412, um gigante que fascina qualquer viajante. Aos poucos ela foi ficando para trás, passamos por ela observando sua monumentalidade, foi quando Zezito disse que há umas casas muito antigas abandonadas no cocuruto da Serra; lembrei de um relato de Ruth Almeida de que lá em cima há uma pedra com inscrições rupestres… o bucólico distrito de Santa Luzia do Cariri acordava timidamente, o quebra-molas nos forçava a prestar atenção na igreja, abrigo e uma sortida bodega, seguimos até avistarmos a Serra do Sucurú, colossal, imponente, abraçando a cidade de Sumé, deixando-nos acessá-la por uma brecha em seu corpo, por onde a estrada passa. Cacheada de pedras de um lado e outro, os blocos redondos pareciam olhos vigilantes a quem chega à cidade.
Fomos direto para a Creche Anita Garibaldi Mendonça Raphael. Impressionou a quantidade de caravanas de diversas cidades do Cariri histórico. Reencontramos muitas amigas e amigos, de Pocinhos o escritor Bismarck, de Boa Vista o incansável Flávio, que me apresentou uma belíssima revista produzida sobre os festejos do padroeiro Bom Jesus dos Martírios e me confidenciou que vai trabalhar em mais um documentário… Antônio Mariano Sobrinho, de Camalaú, apresentou suas novas produções, Chicão e Nivaldo de São João do Cariri, fizeram uma bela homenagem a Ruth Trindade de Almeida, que resultou em um cordel, ela presente se emocionou; Paulinho de Cabaceiras também lançou cordéis. Tivemos o lançamento da biografia de Belchior por Jotabe Medeiros; a apresentação do jornal Cabeça de Rato e seus 30 anos de vida e poesia no Cariri,
organizado por Zito Nunes e tudo isso compondo uma grande confraternização, regada a um delicioso café ofertado pelo IHCG como sempre ocorre em seus encontros.
O momento alto do evento foi a inauguração do Memorial de São Thomé do Sucurú (Casa de Oscar Ferreira de Freitas e Rita Raphael de Freitas), um casarão defronte a Praça Adolfo Mayer que foi doado a Prefeitura pelo casal patrono exclusivamente para fins culturais. Daniel Duarte, Presidente do IHGC, foi quem intermediou o processo que durou mais de um ano. O acervo inicial tem várias peças doadas pelo próprio Daniel e outras de famílias da cidade. Soubemos que em breve vamos ter uma ala Zé Marcolino e que acervos documentais e audiovisuais estão sendo doados para a ala da imagem e do som. A pinacoteca do Memorial leva o nome da saudosa Eunice Braz e a reforma e entrega ao público ficou por conta do Prefeito Éden Duarte que foi contundente em sua fala: “Isso vai tirar um pouco o débito que nós tínhamos com a história do Município de Sumé e servirá como um ponto turístico, uma referência para a nossa cidade”.
O memorial São Thomé do Sucurú (antigo nome de Sumé) é mais um marco deixado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Cariri que cumpre sua missão em desenvolver e valorizar a cultura de nossos Cariris Velhos, mais uma bela história, mais um marco de resistência cultural do nosso povo. Sob as bênçãos da Imaculada Conceição, Serra Branca e Sumé estão em festa! Fotos no e.mail dele

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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