Quinta foi dia da Feira

outubro 7, 2018

Em Campina Grande sábado é dia de feira sim senhor, mas a quinta também tem ‘feira’ e esta, especialmente (27/Set/18), dia de São Cosme e São Damião, dia do Turismo e do Turismólogo foi bem animada na tradicional Feira da cidade, isso porque faz exatamente um ano que nossa maior Feira, a ‘Feira das Feiras’foi reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro.
Então o IPHAN, a Prefeitura Municipal e os feirantes organizaram um evento que pudesse celebrar esse aniversário, abraçando simbolicamente o seu mercado. A Feira é por si só um caldeirão cultural e histórico e a de Campina Grande é ainda mais por seu caráter regional e por sua história estar umbilicalmente ligada a história da cidade. Lugar de sociabilidade e identidade cultural de nosso povo expressa em traços que dão toda uma estética singular: tortuosa entre tabuleiros, aformoseada com as curvas sem fim, ora de frutas, verduras, alguidares, cabaças e rodas dos incansáveis carros de mão, tudo sob um céu multicor de rendas, cores, suor, desejos e muita labuta.
Fui conferir esta comemoração que teve concentração e início no mosaico de pedras portuguesas ao lado de nossa Matriz de Nossa Senhora da Conceição. E sob suas bênçãos, a Filarmônica Epitácio Pessoa – nossa querida ‘Sá-Zefinha’ – tocava belas músicas de nosso cancioneiro popular como ‘Feira de Mangaio’animando os presentes. Por volta das 7h45 o cortejo seguiu pelo oitão da Catedral, desceu pela Rua Afonso Campos até chegar na ‘boca-da-feira’ de flores, na Rua Vila Nova da Rainha. A partir dali a interação com os feirantes foi singular, muitos participavam, uns dançavam, outros apenas observavam o burburinho; era difícil ser indiferente àquela contagiante energia.
Ao som do frevo de Capiba e de marchas, mergulhamos no coração da feira e pudemos fazer uma viagem no tempo. Ali uma série de utensílios de madeira, barro cozido, borracha e corda nos fazia recordar que eles ainda possuem larga utilização, relembrando uma vida comum de tempos passados. Brinquedos simples enchia o coração e mente de saudosismo… temperos, queijos e doces com seus perfumes aguçavam nossos sentidos. Ver frutas e grãos sendo vendidos em medidas antigas leva a mente a viajar para tempos imemoriais; uma pilha de rapaduras me fez procurar em volta um João Carga d’Água, iniciando o movimento revolucionário do Quebra-Quilos atirando um desses tijolinhos no frontispício das autoridades, movimento nascido na feira lá no século XIX.
A ‘Rua Boa’ (Manoel Pereira de Araújo) nos transporta para os áureos tempos de casinos e cabarés, das sacadas alguns acenos e sorrisos graciosos resistem ao tempo em uma rua que virou a ‘feira de galinhas’; ao passar pelas ruínas escoradas do ‘Casino Eldorado’ a Sá-Zefinha tocou “Bandeira branca, amor/ Não posso mais/ Pela saudade que me invade/ Eu peço paz…” para mim soou como uma mensagem subliminar de nosso Patrimônio Histórico, clamando pela sensibilidade de nossas autoridades… mas isso é Campina Grande e seu caso de amor e ódio com o antigo e o novo. No Mercado (coração da Feira), palavras das autoridades e de feirantes dividia espaço com roda de capoeira, trio de forró, dupla de violeiros e um sem número de expressões de nossa cultura. E o ‘Pacto pela Salvaguarda da Feira Central’, com o objetivo de resolver questões emergenciais apontadas pelo Comitê Gestor provisório de salvaguarda(formado por, dentre outros, uma comissão de feirantes),foi assinado; momento em que um cordão humano se formou, mãos foram dadas e um abraço simbólico à feira se fez.
Marcaram presença Kátia Bogéa e José Carlos representando o IPHAN nacional e sua representação estadual respectivamente; Giovanna Aquino representou a Sec. de Educação, Cícero Pereira em nome dos feirantes,uma turma de estudantes do ensino fundamental ‘das Damas’, além de secretários municipais e uma gama de intelectuais e aficionados da Feira Central, todos com um lenço/bandana branco comemorativo desse momento histórico; uns amarrados, outros aos ares.
O gesto é significativo e possui grande relevânciano compromisso com os feirantes na melhoria do ambiente, com a cidade e sobretudo com o nosso patrimônio cultural. Viva a Feira de Campina Grande, Patrimônio Cultural Brasileiro.

 

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

 

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