Retrato do descaso

outubro 7, 2018

Será que chegamos ao fundo do poço? Há quem aposte que não. Iniciamos a nossa semana da pátria perdendo um dos maiores tesouros de nossa terrabrasilis, ardeu nas chamas do descaso o Museu Histórico Nacional, detentor da quinta mais importante coleção museológica do mundo, prédio onde foi assinado nossa primeira constituição, onde foi instalado o segundo telefone do mundo, onde viveu a família imperial, onde se faz ciência com suas 6 pós graduações e justamente no ano em que completava dois séculos. E o que podemos refletir com tudo isso?
O incêndio que emudeceu o mundo na noite do último domingo é o reflexo do descaso total com nosso patrimônio cultural e com a nossa cultura, é uma demonstração da falência de nossa memória coletiva, é o atestado da inexistência de uma política pública que possa garantir a preservação de nosso patrimônio e do que nos é mais sagrado que é a nossa história.O que deixaremos como legado patrimonial para as futuras gerações?
Já na segunda feira pipocou nas redes sociais patrimônios históricos de centenas de cidades brasileiras que estão relegados ao descaso, muitas pessoas começaram uma onda de denúncias da atual situação de prédios históricos, museus e arquivos;muitas são as fotografias acompanhada de indagações: “até quando será o abandono?”.
Na Paraíba temos 14 centros históricos e pelo menos cinco dezenas de museus que são cadastrados no Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, a maioria deles tem pelo menos um século e por sua antiguidade merece atenção devendo atender às recomendações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba – IPHAEP e do Corpo de Bombeiros. Ao portal G1, a competente diretora do IPHAEP, a sra. Cassandra Figueiredo, afirmou: “Os prédios, por serem antigos, têm muito material inflamável, ruas estreitas que dificultam a passagem do carro de bombeiros. É todo um aspecto que temos que observar (…) Além da manutenção, existe a necessidade de adaptação de prédios antigos, como o do Museu Nacional, às novas tecnologias, a respeito da segurança”
De maneira geral não se leva a sério a cultura em nosso país. Em todo município e estado que visito converso com os secretários e secretárias de cultura, pessoas brilhantes, cheias de boas ideias, mas sem poder ordenar despesas e 99,9% dessas secretarias não possuem sequer dotação orçamentária, por aí se explica a situação que chegamos. São raras as exceções de arquivos que possuem um fino trato. Na Paraíba posso afirmar que o acervo Átila Almeida (UEPB) em Campina Grande e a Fundação Casa de José Américo em João Pessoa estão bem cuidados mas o que dizer de grande parte de nossos acervos? Onde está o acervo de Machado Bitencourt? E o do amigo José Elias Borges? Soube que o acervo de Odicine ainda está com a família mas sem o devido cuidado necessário para a sua manutenção, deveria ser adquirido por uma de nossas universidades… E o restante dos Arquivos? São vistos pelo poder público como depósitos de material que não presta e depósito também de gente. Quando um funcionário é antigo, prestes a se aposentar, quando apresenta algum problema psicológico ou de relacionamento em alguma repartição, a saída é “despejá-lo” no arquivo, lugar empoeirado, cheio de coisas que não servem mais, funciona como uma espécie de punição. Nestes relicários, documentos importantes dividem lugar com impressoras e monitores velhos e toda sorte de coisas que não mais interessam, é o retrato do descaso.
Está na hora de exigirmos desses políticos que nos governam a atenção devida com nosso patrimônio cultural. Está na hora de exigirmos respeito a nossas instituições culturais. Vamos cobrar, a hora é essa!

 

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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