Histórias pelas ruas de Campina: o Beco da Pororoca

setembro 5, 2017

Há um diálogo entre as pessoas, seus costumes e tradições ao longo do tempo. As coisas e seus elementos pertencentes e inseridos no dia a dia avançam e se constroem gradativamente num aceno cultural desenvolvendo afinidade através do pensamento para uma teoria urbana, do ontem, do hoje e ideias para uma fala enxergando um futuro.
São velhas histórias que fluem na memória descritiva oficial e na narrativa oral que vem de antes: do contador de histórias, dos avós, dos pais, dos irmãos, dos amigos, dos amores, dos professores e é daí que os costumes, a arquitetura e as pessoas são consignadas no fazer urbano de diferentes épocas e contextos, num reflexo das brumas do passado.
Se tratando de Campina Grande, hoje trazemos o Beco da Pororoca. Hoje, Travessa Almirante Alexandrino (Alexandrino Faria de Alencar nascido em Rio Pardo – RS em 12/10/1848 e falecido em 18/04/1926, tetraneto de Leonel Pereira de Alencar, pioneiro da família Alencar no Brasil). Pororoca é uma palavra de origem indígena, do Tupi, que significa estrondo, barulho forte provocado pela natureza. É um fenômeno natural que ocorre quando há o encontro entre as águas de um forte rio com as águas do oceano. Corruptela do nome da árvore capororoca (rapanea sp), azeitona do mato, utilizada no tratamento de diversos tipos de enfermidades.
Esta Rua foi também denominada de Rua Jatobá, segundo descrição de Epaminondas Câmara, em Datas Campinenses: “Começa na Rua Vidal de Negreiros e termina na Rua João Tavares. Antiga Pororoca”.
Nos entremeios da Pororoca havia uma vila, conhecida por ‘Boa Boca’ construída na década de 1920 por José Sérgio de Almeida (Joca Sérgio) casado com Josefa Philomena de Almeida. Boa parte das casas foram compradas pelo casal José Antônio Gouveia (Zuzu) e Berenice Almeida Gouveia (pais do Deputado Federal Rômulo Gouveia, nascido na Pororoca). O Beco “Boa Boca” era lugar onde se situava algumas casas para encontros amorosos (casa de recursos, entradas e saídas, ligeiros motéis), destas, as mais procuradas eram as de Maria Pororoca, Casa de Alice e a da mulher mais desejada: a Maria Garrafada (professora do sexo!) pelos “serviços prestados” aos jovens e gerações diferentes da sua época, patrimônio cultural, histórico sentimental, símbolo da iniciação, monumento de Campina Grande.
Sim, mas voltemos para a Pororoca… Era um beco sem saída de um lado (vindo da Rua Vidal de Negreiros) depois foi desobstruída, antes a passagem comum era por uma abertura estreita do lado da Rua João Tavares, que aliás, são duas.
Na Pororoca havia um cidadão chamado Aderson que recebia níqueis (moedas) de populares para que derretesse e fizesse esporas e estribos, Aderson tinha o ofício de artesão de arreios e outros acessórios para cavalo numa pequena fundição para tal tipo de enfeites. Conta que era o melhor das redondezas. Como também, Aderson tinha uma casa de briga de galos, uma rinha. Devemos a informação ao intelectual Ermírio Leite.
Conta-nos Dona Maria Ferreira da Silva, de Cabaceiras, radicada em Campina Grande desde 1958, que na Pororoca moravam: Seu Apolônio Brito, proprietário de uma Bodega e que também funcionava um depósito de carvão. Seu Apolônio era pai do Professor Brito, aquele do bar existente até pouco tempo, frequentado por intelectuais da cidade; “Seu Venâncio Eloi” da Serraria, um dos fundadores do Treze F.C.; Genésio de Sousa, radialista; Ary Rodrigues, advogado e ex-vereador; Eudes Vilar, fotógrafo; e tal transversal que dá para o Beco Boa Boca morava D. Sebastiana da Garrafada, (conhecida por fazer misturas de ervas, garrafadas) mãe de Maria Garrafada, ah Maria… fa(for)mosa por sua beleza.
E ainda nos idos dos anos de 1940 funcionava a Escola de Dona Jacira, que dava aula particular em sua casa. Outro morador da Pororoca foi o folclórico Pilon, chaveiro, compositor de concorridos jingles políticos. Seu Rosiélio Gomes, esposo de D. Salomé da COTECIL (indústria de beneficiamento de couros), era mais um dentre outros moradores. A Pororoca era o lugar onde acontecia o Forró de “Seu Padeiro” sempre nos festejos juninos.
Hoje no Beco da Pororoca moram o jornalista Rogério Freire, filho de Chico do Tiro, antigo morador; Zuleide Amâncio, Antonio Amâncio (Tôim), as suas irmãs Cecília, Joana Josefa e Rita lavavam roupas finas de pessoas abastadas de Campina utilizando-se do Chafariz próximo a casa onde moravam.
Jornal da Paraíba – 04/06/1997
Pela Rua João Tavares, entrando na Pororoca pela direita, há uma “carreira” de casas iguais e que foram construídas pelo então Presidente da Associação Comercial de Campina Grande, comerciante e exportador de algodão – João Rique e que as mesmas davam de fundos para seu quintal na Rua Vida de Negreiros. Na década de 1990, o pitoresco conjunto de casas foi revitalizado com bares e

 

restaurantes e encontros culturais e na bagagem das apresentações: músicas, shows, teatro, dança, poesia, literatura, artesanato, gastronomia, oficinas

 

exposições de artes plásticas, inclusive no transversal antigo Beco da Boa Boca. Ideia alternativa

pela organização na época para levar às pessoas até ao Beco da Pororoca, em relação ao antigo hábito do campinense, depois das noitadas (baladas), uma esticadinha para saborear caldinhos, de mocotó, cabeça de galo, entre tantos. Acontecia nas madrugadas dos sábados e nas quartas- feiras, sempre no mês de junho; a Vila da Pororoca, apresentava o autêntico forró pé-de-serra, com belo visual junino.
A história da cidade é contada pelos seus moradores, por suas ruas e becos. O Beco da Pororoca conta uma das mais interessantes páginas pitorescas de nossa cidade. Chamamos em particular atenção para suas personagens, gente que marcou a história de Campina e hoje continuam presentes na memória viva de uma cidade pulsante.

 

Thomas Bruno Oliveira

Historiador e Jornalista – 3372-PB

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