Uma viagem a Cubati-PB

Fevereiro 9, 2017

Era tarde de sábado, parti de Campina rumo ao Seridó paraibano, precisamente para a pequena e aconchegante cidade de Cubati conhecida pelo evento de supercross que realiza todos os anos; ali me esperava um grande compromisso, seria na manhã do domingo oficializado como padrinho da menina Clarice Maria, filha dos meus amigos Thuka Kércia e Bruno Gaudêncio, historiadores que há muito conheço e recolho sincera amizade. 

Saindo de Campina na companhia de Vevete (avó paterna), Bruno e sua irmã Aluska subimos cerca de 150m até chegar ao fim do distrito de São José da Mata e os seus 704m de altitude. A partir dali se descortina “as quebradas do sertão”, descemos sinuosamente aquele relevo sendo observados ao lado direito pela serra do Maracajá e em seguida a serra do Engenho (fazendo parte da zona rural de Puxinanã e Pocinhos respectivamente), emoldurando aquele cenário onde o sol já dava sinais de cansaço, os blocos rochosos pareciam itens de decoração, majestosamente dispostos, curiosamente equilibrados.
Passamos pela lendária Praça do Meio do Mundo com destino a Soledade, até ali a vegetação se beneficiava das poucas chuvas caídas recentemente, juremas pretas e brancas, unhas de gato, marmeleiros e outras espécimes se mantinham verdes, cor que não durará muito tempo se não chover. Aos poucos, os tons iam mudando até que, nas proximidades da antiga Ibiapinópolis o verde se desfez… chega Soledade e sua movimentação urbana denunciava o cair da tarde de sábado, muita gente na rua, crianças a brincar, homens, mulheres nas praças, num colorido intenso, comercio fervilhando. No fim da cidade pegamos a PB 177. Dali em diante o caminho estava mais apreciável, até porque não havia a movimentação incessante de carros que tem na BR 230. Ali pude ir mais devagar e curtir aquelas paragens sem ser demasiadamente exigido pelo trânsito.
Com forte nebulosidade, a temperatura estava amena, desci os vidros do carro, senti aquele cheiro acatingado. A brisa que ali passava nos envolvia trazendo os cheiros do mato ressequido e levantava a fina poeira branca que tomava o leito seco daqueles riachos. Vimos um redemoinho cruzando a estrada, véu branco como que a defender aquelas matas (seria a Comadre Florzinha?). A estrada possui muitas curvas e as cruzes no acostamento testemunha de que muitos ali sucumbiram, por imprudência da velocidade ou por distração em encanto àquele torrão. Aqueles carrascais pelos quais passávamos, aquela terra arenosa, calangos e pequenos pássaros coloridos, tudo era belo e o cenário se tornava admirável para se trilhar e reverenciar.
Passamos pela estrada de Seridó e em seguida rumamos à direita pela PB 167 até surgir na paisagem uma alta antena e o telhado de zinco de um ginásio esportivo, era ali nosso destino. Adentramos a cidade e já percebemos o calçamento cuja curiosidade eram as pedras irregulares e lisas, já sabíamos que pisávamos em solo histórico. Cubati já foi chamada de Canoas quando ganhou status de distrito em 1915 voltando ao antigo nome em 1943, curiosidades da política local. Passamos pelas ruas principais onde observamos muitos populares nas calçadas, sentados em cadeiras de balanço ou mesmo no chão, curtindo aquele cair da tarde. Aqueles 25ºC de nada incomodava…
Na rua principal, cujo destaque é a Igreja de São Severino Bispo (que foi totalmente reformada), caminhamos observando a arquitetura e fomos ao Casarão bar e restaurante, lugar cuja decoração é semelhante a botequins antigos, com azulejaria na parede, etc. Preferimos a calçada e ali observamos o cotidiano do lugar. Nesse momento chega um tipo popular, o Piriroca. Este, de olhar fixo em um ângulo perdido, busca relógio, pulseira ou algo de metal: “–Não quero roubar não, quero limpar…” e assim segue seu périplo, após a insistência e a seguida limpeza, ele estira a mão em busca de uma “prata”, recompensa pelo serviço executado. Piriroca deve ter perto de seus 40 anos e perambula pela cidade atrás de ‘pratas’ e novidades entrando sem timidez em qualquer porta aberta.
Na missa (manhã de domingo), Piriroca – sem qualquer cerimônia – caminha pelos corredores e nave da igreja, se posiciona ao lado do padre fitando-o e procura um desconhecido dentre os fiéis para seguir sua peregrinação, eis que ele me encontra, com terno preto e óculos escuros, como minha posição no banco era central, ela não tinha acesso a mim, mas ficou de longe, esperando uma oportunidade. Um ou outro desavisado acaba não tendo a paciência necessária e é rude com aquela figura folclórica, por Deus, a maioria das pessoas o tratam com parcimônia, inclusive o Padre Fernando, que em determinados momentos parecia não conter o sorriso diante de algumas cenas provocadas por este cidadão histórico.
No fim, batizei Clarice, portei a vela santa e participei de todo o processo, desde a reunião do dia anterior. Entre águas, orações e óleos, senti reacender traços ritualísticos e uma sensibilidade cristã esquecida há muito. Experiência ímpar e um compromisso para a vida inteira. Para ser ainda mais marcante, estávamos diante dos 3 primeiros batismos da nova Paróquia de São Severino Bispo e São Vicente Ferrer, recentemente eregida, hoje aos cuidados do Padre Fernando, pessoa admirável e um interessante líder. Quanto a Clarice? Aquilo é um amor! Depois de dormir a missa toda, acordou para o batismo e no alto de seu décimo terceiro mês de nascida, se comportou direitinho e ainda esbanjou sorrisos para o Padre e padrinhos.

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