UM PASSEIO NAS RUÍNAS DA ANTIGA POVOAÇÃO DE PEDRO VELHO

junho 15, 2016

Pedro Velho 2Thomas Bruno Oliveira
Vanderley de Brito

Numa manhã nublada de abril, quando o relógio marcava 9:15h, saímos de Campina Grande para visitar o antigo Pedro Velho, uma povoação que emergiu da águas de Acauã devido a estiagem que vem assolando há alguns anos a Paraíba. O lugarejo certamente data de meados do século XVII, mas a mais antiga referência escrita do lugar que temos notícia é de 1756. Nunca chegou a ser vila nem tampouco cidade, sempre foi um lugarejo à margem do Rio Paraíba, mas desde o século XIX era de importância para a região, se sobressaindo com tanto destaque quanto outras localidades próximas como Natuba, Pirauá, Salgado de São Félix, Umbuzeiro e Aroeiras. O Pedro Velho é berço de muitas famílias, foi terra dos antigos Cosme de Brito, dos Bernardo Frasão, dos Alves do Egito, dos Firmino Normando, dos Dias Correia de Araújo, e dos Jerônimo de Moura. Uma povoação secular recheada de histórias que, de um dia para o outro, estagnou no tempo.
Às 9:35h ainda seguíamos na BR 104 e já avistávamos o boqueirão da Serra de Bodopitá, onde forma o corredor que dá acesso a cidade de Queimadas, e em meio aquela paisagem agreste, debatíamos o triste e repentino fim da povoação de Pedro Velho. Que simplesmente sumiu, sem que nenhum beato vagante daqueles sertões tivesse passado anunciando a tragédia.
Tudo começou no ano de 2002, quando foi erguido ali, nas ombreiras da serra de Acauã, uma grande barragem e, um pouco mais acima da povoação de Pedro Velho foi feita uma vila de casas pré-moldadas para transferir as famílias da área que seria inundada pelo Açude, mas a população do Pedro Velho, num destes lapsos de insanidade movido pelo amor à terra, foi inconsequente e resistiu. Não sabemos o que pensavam, talvez esperassem que a barragem ruísse ao som das trombetas da fé, como ocorrera em Jericó. Certo é que, como os insurgentes de Canudos, eles se mantiveram ali como se imaginando que o céu se recusaria a mandar chuvas para expulsá-los de lá.
No entanto, dois anos depois da construção, o povo de Pedro Velho viu um inverno rigoroso botar cheia no Rio Paraíba, que, obstaculizado pela barragem, começou a tomar o vale. No Pedro Velho as ruas iam sendo rapidamente inundadas, as pessoas saíram de suas casas às pressas, salvando apenas o que era possível salvar. Casas, escolas, igrejas, matadouro, praças, ruas e até mesmo o cemitério da povoação foram sendo tomados pelas águas até tudo ser encoberto. Como previra o messiânico Conselheiro: o Sertão virou mar.
Em diálogo distraído, no momento em que deixávamos a BR 104 pela desolada PB 090 o velocímetro do carro acusava 25km percorridos. Mais dez quilômetros adiante, depois de cruzarmos a pontezinha estreita do Riacho Caracozinho, observamos a esquerda a povoação de Barra de João Leite, de cotidiano pacato. Já estávamos em terras do município de Aroeiras, há muito que a paisagem agreste havia dado lugar à caatinga. Mundo desolador, mas de uma poesia indescritível, o Cariri é incógnito, mas com muito a pressentir. Parafraseando o Riobaldo do Grande Sertão Veredas: “dele a gente de quase nada sabe, mas desconfia de muita coisa”.
Seguimos naquela paisagem tentando decodificar intuitivamente a essência caririzeira, Já havíamos vencido 55,5km quando adentramos o portal em arco da cidade de Aroeiras. O sol em ascensão elevava a temperatura consideravelmente e por isso
passamos apressadamente pelas ruas calçadas da cidade, quase sem dar novas atenções a sua arquitetura e, findo o perímetro urbano, ingressamos numa estrada de terra que rumava para as cabeceiras do nascente, seguindo a poeira do último veiculo que ali se aventurou. Em ritmo mais desacelerado pelas deficiências da topografia, abrimos os vidros do carro, trocando o ar condicionado pelo ar caririzado, foi quando o cheiro viril da caatinga e o som do canto dos pássaros invadiram o interior do veículo em marcha, oxigenando até nossas almas de êxtase com aquela paisagem campestre. Quando o velocímetro acusava 69km percorridos desde nossa saída de Campina Grande, chegamos à Vila Nova do Pedro Velho.
A Vila não tinha charme algum, era um conjunto habitacional recente que só agora começava a receber uma caracterização tênue de povoação. Era já 10:30h e cruzamos a vila sem dar muita atenção, tínhamos pressa porque o sol seguia para o cume do firmamento, onde normalmente é mais inclemente pra quem se dispõe a enfrentá-lo. Dali começava a descida para o vale do Paraíba, a estrada era bem maisPedro Velho 3 acidentada e foi preciso mais dez minutos para vencer os dois quilômetros que separa a Vila Nova do antigo Pedro Velho, onde o tempo parou.
Deixamos o carro em frente a um serrote de pedras sobre o qual estava um cruzeiro. O chão era tórrido, formado de rachaduras e vegetação tardia. Sem dúvidas estávamos em lugar antes ocupado por águas. Mais adiante as ruínas. Inúmeras delas. Toda uma povoação, antes pungente, agora se resumia a mudos escombros. Fachadas de prédios no chão, misturados à vegetação rasteira e conchas de pequenos moluscos há tempos mortos, mas que ainda denunciavam as linhas do artístico arquitetônico da povoação.
Tudo ali era desolação. O vento ecoava murmúrios dos antigos e a luminosidade do sol trazia imagens de cotidianos perdidos; crianças correndo, velhos nas calçadas que não mais existiam, burros zurrando, moças cantando com potes d’água à cabeça… Era como se ali coexistisse mundos paralelos, um de ruínas mortas e outro (imaginativo) de vida pulsante.
Caules de coqueiros enormes sem a copa mostravam que até a vida vegetal da povoação fora consumida pelo excesso de água. Na serra, uma linha contínua que dividia os tons da vegetação denunciava que o povoado do Pedro Velho esteve submerso em Acauã há pelo menos uns oito metros de profundidade. Enquanto caminhávamos naquela povoação fantasma, vigiados pelas almas do passado e pelos calangos que inspecionavam as ruínas, achávamos coisas: Um oratório de alvenaria em meio ás ruínas, ao invés de santos exibia uma lagartixa atenta, um cocho de alvenaria que há muito não via ração, nas casas havia fechaduras, dobradiças de portas e armadores de redes enferrujados, garrafas quebradas, cacos de potes, tigelas, tijolos e telhas… De cortar o coração. Tudo ali era o reflexo de abandono.
Nada ali estava como antes, até o trajeto do velho Rio Paraíba havia se deformado. Pedro Velho 1Dentro da povoação, próximo ao que seria a antiga margem do Rio encontramos o cemitério do lugar. Ali as vozes do passado ecoavam mais forte. Enquanto caminhávamos por entre os túmulos e mausoléus (de arquitetura muito antiga), sentíamos a impressão de que não estávamos sós. Quantos antepassados do Pedro velho estariam ainda ali? Qual daqueles túmulos seria o jazigo do velho coronel Manoel Cosme de Brito, antigo líder político do lugar? Ali, principalmente ali, o silêncio se fazia absoluto e mórbido, tudo inspirava respeito, o vento não corria e podíamos ouvir na alma as lamúrias dos mais antigos povoadores do lugar. Foi neste cemitério aflorado das águas que tivemos a certeza de que o antigo Pedro Velho não é apenas os escombros de uma antiga povoação. Mas uma relíquia histórica, com vozes e imagens, que narram a epopéia das velhas famílias colonizadoras daqueles cariris.

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